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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Praia

Praia

Peixes, cardumes,
Ondas, queixumes,
Verão.
Belas morenas
Tardes serenas
Paixão.

Mares profundos,
Olhos bem fundos,
Tristeza.
Pernas divinas,
Lindas meninas,
Beleza.

Beijos, lamentos
Soltos aos ventos
Apenas.
Sangue nas veias
Brancas areias
Amenas.


Santos, outubro 1949 (14 anos).
Ives Gandra

OUTRO CROMO

OUTRO CROMO

No horizonte o sol desmaia,
Sem o brilho que antes tinha.
Somente fica uma linha,
Reluzente como a alfaia.

A areia branca da praia,
Está branquinha, branquinha,
Que até parece ser minha,
A areia branca da praia.

A noite negra se ensaia
No mais tenebroso efeito,
Bem distante, na garrida.

Ao ver a areia da praia,
Que dorme, branca, em seu leito,
Eu lembro de ti, querida.

São Paulo, Agosto de 1951.
Ives Gandra

COMPASSO DERRADEIRO

COMPASSO DERRADEIRO

No compasso do tempo gero teias,
Que se emaranham em torno de meu mundo,
Neste relógio feito por areias,
Endereçadas para um chão sem fundo.

Dentre a cimeira parte pouco resta,
Quase tudo passado da medida.
A vida não foi luto, nem foi festa,
Como não foi também toda perdida.

A derradeira areia está bem perto
E meu último passo bem à vista.
O canto continua no deserto,
Sem saber de seu fim quant’inda dista.

Neste tempo renovo um só compasso,
Que formatou, na luta, meu espaço.


Jaguariúna, 01/05/2009.
Ives Gandra

A Primavera eterna

A Primavera eterna

A pátena do tempo é mais intensa,
Cobrindo o temporal e o intemporal,
Com um toque que o sonho não dispensa,
Como o mar que na praia põe o sal.

Não há no nosso amor porém as rugas,
Nem corre em nossas veias o cansaço,
Como em Bach os prelúdios geram fugas,
Sorvemos este bem em todo o espaço.

Desde cedo dedico-te, meu verso,
com a mesma imensidade, todos anos,
Tu és, posso dizer-te, um Universo,
Onde imperas com ares soberanos.


Amor de meu amor, amor eterno,
Que sempre em primavera torna o inverno.


Rio, 08/04/2008.
Ives Gandra
i

CICATRIZES DO TEMPO

CICATRIZES DO TEMPO

Cicatrizes do tempo formam rugas,
Desfigurando seres pela vida.
Por mais que se vislumbrem novas fugas,
Haverá sempre o dia da partida.

As almas, muitas vezes, ficam nuas,
Descortinando assim tais cicatrizes,
Contorcidas nos troncos e nas ruas
Dos abismos sem fim e sem matrizes.

Não se limpam da pele as rudes marcas,
Mas podem se limpar tatuagens d’alma,
Tornando as tristes nódoas, nódoas parcas,
Na busca da verdade, eterna e calma.

Quem luta, na existência, por ser forte,
Liberdade terá na sua morte.

Jaguariúna, 20/11/08.
Ives Gandra

A nave da vida

A nave da vida

A vida é frágil nave que caminha
Por águas procelosas, águas calmas,
E que as singra, sem rumo, mas sozinha,
Sem saber o que faz, à bordo, as almas..

O seu percurso, até final naufrágio,
Não deixa marca alguma em superfície,
Num canto marginal e sem adágio,
Que a todos diz aquilo que não disse.

Navega, mesmo quando iluminada,
Buscando seu momento derradeiro,
Navega, pelo tempo, para o nada
Entre os homens sem ter um timoneiro.

Fecha-se sempre atrás da nave o mar.
Só nela há de salvar de Deus o amar.

Ives Gandra

Orfeu

Orfeu

Tange, Orfeu, sozinho, tange a lira agreste
Para afugentar a dor, que te devora,
Na floresta calma, embaixo de um cipreste,
Dorme para sempre Eurídice e singela,
Como se dormisse em teus braços outrora.
Tange, Orfeu, a lira, tange e lembra dela.

Ao tangir pungente, entoa um triste canto,
Ó poeta amante, sem o amor da amada,
Canta, Orfeu, sozinho, canta que teu pranto
Enche a selva toda de melancolia,
Canta, Orfeu, e lembra da formosa fada,
Que morreu por ti e muito te queria.

Olha os animais, Orfeu, que o teu penar
Recobriu de dor, de dor por tuas mágoas,
Tanto sofrimento fez que novo mar
Filho seu nascesse, em lágrimas brotado
Pelo transformar dos corações, em fráguas,
Dos nobres amigos, olha todo o lado.

Tanto amor tiveste, Orfeu, e tão ardente,
Que perdeste Eurídice, por tanto amor,
Tu, que até Plutão, supremo e indiferente,
Recobriste em pranto, faze ao que te resta
Dos amigos nobres, que choram de dor,
A felicidade, canta na floresta.

Nunca mais mulher alguma, grande Orfeu,
Teu amor terá ou tua inspiração,
A paixão da morta é grande e não morreu,
Como não morreu a dor, que te entristece,
Canta, Orfeu, o canto que no coração
É mais lindo e puro que uma santa prece.

Tange, Orfeu, sozinho, tange a lira agreste
Para afugentar a dor, que te devora,
Na floresta antiga, embaixo de um cipreste,
Dorme para sempre a amada e tão singela,
Como se dormisse ao lado teu outrora,
Tange, Orfeu, a lira ... tange e lembra dela.


Ives Gandra

Última semente

Última semente

Eu a tive por última semente,
No silêncio do fim, que desencanta.
Como renasce a vida, fragilmente,
A terra renascera, em muita planta.

A pálida semente, porém, fria,
Eu conheci, na terra, mal lançada,
Simbolismo patético do dia,
Perto da noite e não da madrugada.

Eu conheci, no solo, ressequida,
Tão morta, logo após o seu carinho,
Como a vida ressurge, parte a vida
E a terra tem, calada, igual caminho.

Eu a tive por última semente,
Sem forças, trespassado, mudamente.

Ives Gandra

Teu silêncio

Teu silêncio

O Teu silêncio busco desvendar,
Nas névoas de uma estrada, que não trilho,
Sendo aquele que tem cansado o olhar
E que luta por ser chamado filho.

O Teu silêncio é forte e muito fraca
A força que projeto na procura,
Alicerce desfeito sem estaca,
Luz apagada em plena noite escura.

O Teu silêncio vive em minha vida,
Cujo curso reduz o seu caminho,
Mas ando sempre e sinto esta ferida
Que a rosa nunca fa7, mas faz o espinho.

O Teu silêncio eu sei, porém, um dia.
Será descortinado e a minha via.


Ives Gandra

Soneto sobre a lenda dos sargaços

 Soneto sobre a lenda dos sargaços

“E, no olhar de sargaços, fui espelho.
Sargaços deram cor a teu olhar,
Que o sangue quando corre pelo mar
É verde amarelado e não vermelho.

Por que não despertei sem te acordar?
Estrelas despencaram do céu velho
Refletindo nas águas que eu espelho
A distância jasmim de teu olhar.

Por que foi que perdi-me no interlúdio?
Ultrapassei o encanto de teus braços
Sem nunca receber qualquer repúdio

Não foi, por certo, a névoa nos espaços?
Mas se foi, por que causa meu prelúdio
Teus olhos coloriu cor de sargaços?...”


Ives Gandra

Soneto de vida interior

Soneto de vida interior

Senhor, põe-me, outra vez, à Tua frente
E faze-me encontrar o Teu caminho.
Perdido fui e sou, se de repente
Somente a mim me entregas e sozinho.

Quantas vezes me sinto diferente
E volto a ser, no tempo, descaminho!
Quantas vezes Te fito e sou descrente
E, no espaço, me faço agreste espinho!

Senhor, mostra-me sempre o Teu amor,
Qual tesouro enterrado num terreno,
Valendo mais que todos, pois que é vida.

E faze-me Teu filho no que for
A vivência daquele tom sereno,
Que me leva à chegada da partida.

Ives Gandra

Querer-te

Querer-te

Não consigo este vício abandonar
Que me faz, pelo tempo, sempre igual,
Como igual corre a noite sobre o mar
E deixa o mar na praia seu sinal.

O vício me ensinou a naufragar,
Num naufrágio romântico e informal,
Que não traz o sossego por seu par
E não chega, no todo, a ser um mal.

É, contudo, perpétuo como o sal,
Silente como o puro comungar
E triste como o amor sem ter aval.

É o vício de querer-te, devagar,
De mansinho, de fato e de enxoval,
De minha prole mãe, em santo altar.

Ives Gandra

Pelo caminho de teus olhos


Pelo caminho de teus olhos

O recesso intocável de tua alma
Invadi, repentina e mudamente,
Através de momento, cuja palma
Cruzou pelos teus olhos, diferente.

A profundez longínqua foi semente
Do sucesso, que trouxe após a calma,
E a conquista desfeita, docemente,
Conquistou o senhor, que hoje te ensalma

Do assalto não mais resta que o caminho,
Onde, silente, entrei, despercebido,
Cuidando retirar—me, por inteiro.

Perdi-me, todavia, e não sozinho
Retornei, muito estranho e sem sentido,
De teu recesso eterno prisioneiro.


Ives Gandra

Orfeu

Orfeu

Nenhuma estrela havia, em seu olhar.
Um silêncio noturno mal rondava
O muro esmuguecido do pomar,
Cujo fruto sua alma alimentava.

À noite era, porém, linda e presente,
Coberta a lua por escura fronha,
Era a noite do tempo inexistente,
A noite, que consola o mal, que sonha.

Mesmo assim cobrava-se de morte.
Um olhar negro é duplo e, se empoçado
Em funda sensação, encerra a sorte
De um outro olhar no olhar cio próprio fado.

Nenhuma estrela havia. Havia Orfeu,
Lembrando-se da amada que morreu.


Ives Gandra

Olhar de infância

Olhar de infância

Penetrei pela enorme profundeza
Deste mar colorido de teus olhos
Triste azul. Melancólica tristeza.
Penedo transformado sem escolhos.

Penetrei. Nadador por ter andado.
Suicida solitário. O mar azul
Logo cobriu-me num estranho fado
Quem em vez do Norte, descobriu o Sul.

Azul dentro do azul. A maresia
Marítimos escombros desvendava
E os sonhos que eu fazia, desfazia,
Desfazendo um abismo à idéia escrava.

Afoguei-me no fundo da distância
De um olhar, que busquei por minha infância.

Ives Gandra

O temporal do tempo

O temporal do tempo

O temporal do tempo temperado,
Descortinando sonho e maresia,
Faz-se espaço do espaço despassado,
Que a tela do horizonte mal desfia.

O olhar, que não penetro, desafia
Meu soneto de amor descompassado.
Certeza tão incerta cada dia,
No mundo que descubro de meu lado.

Não sei do que saber e para que,
Nem sei se você sabe o que já sei
Eu sei o que se sabe e o que se

Pelo caminho simples de tal lei.
E não me importa, pois quero você,
Vocação de palhaço e não de rei.

Ives Gandra

O soneto mais estramho

O soneto mais estramho

Silêncio o soneto mais estranho.
Nem meu. Nem de ninguém. Por quê? Não sei
O olhar foi talvez verde ou foi castanho,
Bem antes do silêncio em que parei.

Há remos esperando por seu rei
E banhistas que buscam no seu banho
Equacionar o tempo com a lei.
O silêncio do espaço, que eu arranho.

Onde arranho, onde luto e silencio,
Vive o soneto mais estranho assim.
O sol onde ele nasce é sol de estio,

Que não conhece o aroma do jardin.
E desta história lá eu perco o fio,
Pois lá começa a história de meu fim.


Ives Gandra

O sentido da vida

O sentido da vida

O sentido da vida, por inteiro,
Só desvendo no seu sonho de vida
Que transforma a semente no celeiro,
Alimento da terra mal ferida.

A santidade é o toque derradeiro
Descortinando o ponto de partida,
Cujo encontro se faz, quando o sendeiro,
Na chegada descobre o fim da lida.

Quão difícil, porém, se sou quem trilho
Esta estrada de Deus feita p’ra mim,
Pois qu’outras menos belas já trilhei.

Quão difícil! Contudo, sou Seu filho,
E tê-la quero dentro do jardim,
Onde O encontro, paterno, como Rei.

Ives Gandra

O naufrágio

O naufrágio

O naufrágio roubou-me o barco triste,
Silentemente, como rouba a vida.
O meu naufrágio é um mal, que mal existe,
Pois que, no fim, começa outra partida.

Anteriormente vira esta ferida,
Ferida, meu amor, que nunca viste.
Continuei capitão, que inda resiste,
Porém, sem ter sentido tal descida.

O naufrágio, portanto, foi normal.
O barco triste soçobrou por frágil,
Nas águas calmas, desfazendo em sal.

Depois, o mar voltou a ser caminho
De um outro menos triste e bem mais ágil
E o barco triste o mar deixou sozinho.

Ives Gandrai

O encanto da presença

O encanto da presença


O soneto do amor, que não tem fim,
Eu refaço, silente, uma vez mais.
Há cores florestais no meu jardim,
No meu jardim... sem cores florestais.

A imensidão das sombras noturnais
De novo ganham vida, atrás de mim,
Navio que navega junto ao cais
Ou corcel livre e preso no selim.

O soneto do amor, de um grande amor,
Que a própria vastidão não é tamanha,
Infinita a visão de sua crença.

Continue assim sendo o seu calor
E traga, dessa forma sempre estranha,
À minha vida o encanto da presença.



Ives Gandra