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terça-feira, 12 de abril de 2011

A NUVEM


Nuvem errante, peregrino vaso
que flutuas no espaço eternamente,
ora dourado pelo sol no ocaso,
ora fendido pelo sol nascente.

Essas formas fantásticas que assumes,
batida pela luz e pelos ventos,
nuvem feita de orvalho e de perfumes,
são imagem dos nossos pensamentos.

Amor ou ilusão que vais levando,
no seio onde germinam primaveras,
detém-te nuvem, deixa-me, sonhando,
nutrir-me na visão destas quimeras.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

DE TARDE


Eu vi voando caminho do Ocidente,
o bando ideal de minhas ilusões;
Do sol, um raio trêmulo, dormente,
dourava-as com seus últimos clarões.

Para longe corriam doidamente
a crença, o amor, meigas aspirações ...
Creio até, que entre as aves, tristemente,
iam partindo os nossos corações.

Além, além ... e os pássaros risonhos,
foram-se todos. Vênus lacrimosa
brilhou. No mais, deserta a imensidade.

Não! No ocaso do sol e de meus sonhos,
ficou, ainda a pairar triste e formosa,
a ave formosa e triste da saudade.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

VERTIGEM DA ARTE


No frontispício de uma antiga igreja,
talhado em duro mármore polido,
abre as asas um anjo que branqueja
entre as flores de pedra adormecido.

O olhar num sonho místico abismado,
imóvel fita a altura friamente:
- gênio estranho, que aos céus arrebatado
em pedra se tornasse de repente.

Era manhã. No rosto alvo e divino,
que no pó do tempo envolve em seu manto,
vi cintilar no orvalho matutino,
deslizando na pedra como um pranto ...

E julguei um instante, que chorasse
aquele ente sem vida, à luz da aurora,
Que se contraísse aquela face,
sem me lembrar que o mármore não chora!

Extático entre os góticos primores,
que um talento infeliz, gênio sem palma,
cinzelasse, talvez, sonhando amores,
e escondendo na pedra o sangue da alma,

tive a vertigem, (louco desvario)
de perder-me no espaço indefinido,
só para ver, de lá, o olhar sombrio
desse anjo de pedra adormecido.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

OS FERREIROS


Ó vultos varonis, resplandecentes,
ao rutilar fecundo do trabalho,
que à pobreza buscastes agasalho,
nas forjas inflamadas e candentes:

Sois o Messias que ensinais às gentes
a despir do passado o vil frangalho;
rompe um sol cada vez que tomba o malho,
porque sois outros tantos orientes.

Fazei rolar a esplêndida cascata
do trabalho incessante, pelas vasa
das rochas da matéria a progredir...

Que essas chispas ardentes que desata
vossa bigorna, orvalho são de brasas
para a flor luminosa do porvir.


Augusto de Lima
in Coletânea de Poesias

CÓLERA DO MAR


Disse o rochedo ao mar, que plácido dormia:
“ – Quantos milênios há que tu, negro elefante,
tragas covardemente, esses cuja ousadia
se arriscou em teu dorso enorme e flutuante?”
O mar não respondeu, mas um tufão horrendo,
cavou-lhe a entranha e fez estremecer de medo
o coração do abismo. Então, o mar se erguendo,
atirou um navio aos dentes do rochedo.


Augusto Lima
in Coletânea de Poesias

PAISAGEM NOSTÁLGICA


Deixei meu berço por destino incerto,
Mas a paisagem, guardo-a na pupila.
Guardo-a no coração, donde se estila
Toda a essência das lágrimas que verto.

Sons de sino perdidos no deserto...
Campanários da quase oculta Vila...
Serros magoados que a distância anila,
Mais formosos de longe que de perto.

Não vos esquecerei, por me lembrardes,
Enquanto prantear do alto das tardes,
A estrela Vésper que me viu partir.

Do astro do sonho onde minha alma adeja,
Quando colher as asas, só deseja,
No vosso seio maternal dormir.

Augusto de Lima

FLOR MARINHA


Há nos seus ademanes curvilíneos,
A doce languidez da vaga esquiva.
Seus olhos são dois fúlgidos escrínios
De gemas com que o afeto nos cativa.

Flor das espumas, dos corais sanguíneos,
Nenhum tem de seus lábios a cor viva.
Quanto aos cabelos, meu amor define-os:
"Fios de ébano em onda fugitiva".

Não sou homem do mar, contudo afago
Na alma um doido capricho, um sonho vago,
Um vago sonho singular talvez:

É de um dia, na praia, surpreendê-la,
E unir minha sorte à sorte dela,
Sobre o dorso espumante das marés.


Augusto de Lima

ESPERANÇA E SAUDADE


Sorte falaz a que nos guia a vida!
Por que há de ser tão rápida a ventura,
Que só a amamos quando é já perdida
Ou depende de uma época futura?

O que ao presente, mal nos afigura,
Era esperança, há pouco apetecida,
E uma vez no passado, eis que perdura
Como saudade que não mais se olvida.

Há sempre queixas do atual momento,
E entre as datas se eleva o pensamento,
Como uma ponte de sombrio aspeto.

Em busca da ventura que ignoramos,
Temos saudade ao bem que não gozamos,
Ilusão de ilusões, sonho completo.


Augusto de Lima

VOLTA AO PASSADO


Quis rever em memória o santo abrigo
Onde deixei as ilusões dormindo.
"Vou despertá-las", murmurei, partindo,
"E hei de trazê-las outra vez comigo".

Nova e última ilusão. No sítio antigo,
Jardim outrora florescente e lindo,
Já ninguém dorme. Tudo é morto e findo.
Só de cada ilusão resta um jazigo:

Campas sem epitáfio... Agora é tudo
Um cemitério pavoroso e mudo,
Bem que inda de flores se alcatife.

E dos ciprestes na última avenida,
Vejo a última ilusão que me convida,
Martelando nas tábuas de um esquife!

Augusto de Lima

SERENATA


Plenilúnio de maio em montanhas de Minas!
Canta ao longe uma flauta e o violoncelo chora,
perfuma-se o luar nas flores das campinas,
subtiliza-se o aroma em languidez sonora.

Ao doce encantamento azul das cavatinas,
nessas noites de luz mais belas do que a aurora,
as errantes visões das almas peregrinas
vão voando a cantar pela amplidão afora...

E chora o violoncelo e a flauta, ao longe, canta.
Das montanhas cantando, a névoa se levanta,
banhada de luar, de sonhos, de harmonia.

Com profano rumor, porém, desponta o dia
e, na última porção da névoa transparente,
a flauta e o violoncelo expiram lentamente


Augusto de Lima

No trem



O ano passado neste mês… É um dia
De grande sol. A máquina troveja,
Berra, fuma, atravessa em correria
A amarela paisagem

Vais a um canto do trem. A serrania
Foge aos poucos. A aragem te festeja
Voa, a brincar com o teu cabelo,e, fria,
leva-te, os olhos, trêfega te beija

Olho-te, mudo. Esquece-me a paisagem
Mas, anoitece e a líquida turquesa
Do mar nos diz que é terminada a viagem

Formam nuvens pelo ar, plumbeas refolhos
Cai de leve o crepúsculo… e a tristeza
Espalha outro crepúsculo em teus olhos.

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

Semente do Deserto



No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

onde ela nasce, de repente,
— Seara de mão cruel e ignota —
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

LENDO-TE



"As roseiras aqui já estão florindo..."
Mandas dizer.. ."As híspidas e pretas
Rochas da estrada já se estão cobrindo
De musgo verde... Há muitas borboletas..."

E eu me fico a pensar que agora é o lindo
Mês das rosas esplêndidas e inquietas
Asas: mês em que a serra anda sorrindo,
E em que todos os pássaros são poetas.

Vejo tudo: a água canta entre os cafeeiros.
Vejo o crespo crisântemo e a açucena
Estrelando a verdura dos canteiros.

Penso, então, que em tudo isto os olhos pousas...
E começo a chorar...Olha: tem pena,
Não me escrevas falando nessas cousas!...

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

EU



Quando alguém me pergunta, por ventura,
Quem me faz de outros tempos diferente,
Pensas tu que teu nome se murmura,
Que o exponho à ânsia voraz de toda gente?

Não; digo apenas o seguinte: é pura,
Casta, simples e meiga: é uma dolente
Cauta rola de tímida candura,
Flor que menos se vê do que se sente.

Mimo de graça e de singeleza;
Clara estrela arrancada a um céu profundo:
Doce apoteose da Delicadeza...

Nesse ponto, de súbito, me calo;
E, sem dizer teu nome, todo mundo
Fica logo sabendo de quem falo!


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

O LAGO



Rolando as ondas plácidas, que o vento,
Leve, embalava, a superfície fria
Refletindo o estrelado firmamento
Sereno, o lago circular, dormia.

Passara o vento ríspido, que o havia
Feito crespo e feroz. E agora, lento,
Rola, e repete a música harmonia
Antiga, e esquece o temporal violento...

Olha: este lago límpido, e sem fráguas,
De ondas mansas, de leve entumecido
Pela aura branda que lhe beija as águas,

Faz-me rever minhas felicidades:
Assim vivo de ti hoje esquecido,
- Sem anseios, sem ciúmes, sem saudades...


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

TUAS CARTAS



Tuas cartas rasguei uma por uma:
Cento e quatorze páginas e tiras
De confissão e juramento: em suma,
De perfídias, de enganos, de mentiras.

E chorei, ao rasgá-las! Tinha alguma
Cousa implorando contra as minhas iras
Em todas; e, hoje, irritação nenhuma
Neste peito verás, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
Cada rompida página era um cardo
Que enterrava do peito em cada canto.

E eis porque, pelo chão, após instantes,
Os pedaços juntei... e agora os guardo
Com mais amor do que os guardava dantes!


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

SAUDADES



Dominando a planície, a fronde aberta
Ao Sol, beijada pela ventania,
De áureas flores e pássaros coberta,
Farfalhando, aquela árvore se erguia.

Quando o Sol, pelo azul, a chama experta,
Como um jalde crisântemo - se abria,
Cantava logo um rumor d'asa, e, alerta,
Logo o bando de pássaros a enchia.

Era toda rumor. Suaves, bailando
Em torno, havia, namoradas dela,
Borboletas intrépidas, em bando.

E, do chão, como fúlgidas centelhas,
Insetos de ouro vinham ver aquela
Doce amiga de pássaros e abelhas.

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

Retrospecto



Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

Ó mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo... E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

Íntimo



Minha mãe! minha mãe! Tu, que adivinhas
esta mágoa amaríssima que eu canto,
tu, que trazes as pálpebras de pranto
cheias, tão cheias como eu trago as minhas;

tu, que vives em lágrimas, e tinhas
a vida, outrora, tão feliz, enquanto
deste teu filho, que tu queres tanto,
todas as mágoas serenando vinhas;

tu, que do astro do bem segues o brilho,
pede ao Deus que, apesar das tuas dores,
ainda persiste a castigar teu filho,

que eu não morra a sofrer, como hoje vivo,
esta angústia de uma árvore sem flores
e esta mágoa de pássaro cativo.

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

Condor



Foste um sonho no azul. Viste rolar de perto
A áurea roda do Sol. No etéreo sorvedouro
Do infinito, escutaste os temporais em coro,
O barulho do céu de mil nuvens coberto.

Asas ao vento, a bater no firmamento aberto,
Quanta vez, negro e só, viste, espantado, o louro
Bando de astros faiscar no intérmino Deserto
Como constelações de borboletas de ouro!

E subiste... A Amplidão te acalentou nos braços
Largos. Alto, a rolar, embalde o Sol faiscantes,
Crespas ondas de luz golfejou nos espaços.

E caíste, afinal, palpitante e convulso.
E hoje, guardas no olhar as mil nuvens distantes,
- Astro frio e sem luz, dentre os astros expulso!...

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)